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Trocando em miúdos...


Meu nome é Vitor Lopes. Nasci na cidade de São Paulo no verão de 1975. Aos doze anos, ganhei um violão. Aos catorze, uma gaita. Todos os dias eu chegava da escola lá pelas duas da tarde, almoçava e me trancava no quarto. Ficava afinando o violão e assoprando a gaita. De repente, alguém batia na porta: “Venha jantar”. E assim, mais uma tarde passara num segundo...como se fosse um passe de mágica...até hoje sinto a música dessa mesma maneira, como uma coisa mágica, que me leva para outros mundos, outros tempos e me aproxima cada vez mais de mim mesmo.
Quando me dei conta, já estava tocando em festivais na escola, inaugurando praças, fazendo shows, dando aulas. Comecei pela gaita mesmo, com professor, o melhor gaitista do mundo, Omar Izar, até hoje em atividade aqui na capital. Depois, fui ver de perto o violão, junto de Celso Brescia Leal. Mas logo percebi que o meu futuro estava naquele pequeno instrumento. Fui procurando outros professores, mas não havia. Assim, fui estudar improvisação com o guitarrista José Roberto Araújo, depois, com o saxofonista David Richards. E percepção com o pianista Ricardo Brein. E re-harmonização e arranjo com o também pianista Cláudio Leal.
Um dia, aconteceu uma grande revelação. Estava tentando uma bolsa para estudar jazz fora do país quando um professor me chamou para assistir a um show seu. Fui. Lá, no seu grupo, havia um sujeito franzino tocando um tipo de guitarrinha elétrica, pequenininha. Ele tocava com uma técnica perfeita, limpa, improvisava como um demônio, fazia piadas musicais, se é que isso existe, e se divertia como um menino. Estava ali o meu caminho. Esqueci essa história de jazz, de exterior, de tudo o mais e fui atrás dele, Milton Mori, a quem até hoje chamo carinhosamente de “mestre” e com quem tenho a honra de partilhar tantos trabalhos.
Com o Miltinho, minha vida mudou. Descobri o choro e, no choro, descobri o caminho que queria para desenvolver as habilidades que um músico brasileiro precisa ter: virtuosismo, sonoridade, precisão, suingue, improviso... havia encontrado a minha escola! Em pouco tempo já me apresentava com o grupo Caindo no Choro. Fui convidado a tocar no regional do Canário, na Praça Benedito Calixto, onde permaneci por quase sete anos e que me permitiu tocar com Carlos Poyares, Charles da Flauta, Niquinho, Pascoal, Fofo, Seu Wilson, entre tantos outros autênticos chorões da velha guarda.
Pouco tempo depois, outro encontro decisivo: conheci Guga Murray, violonista carioca radicado em São Paulo; e juntos começamos um duo, que logo se transformou em trio com a entrada de Marcelo Costa. Nascia Um Trio ViraLata, com quem gravei dois CDs e realizei nove turnês pela Europa.
Numa tarde no final de 2005, fazia uma gravação num estúdio em São Paulo, quando o dono do estúdio entrou na técnica. Percebi pelo aquário que todos ficaram tensos com a sua entrada, afinal, ele era o chefe, e não parecia estar de bom humor. Ele cochichou algo para o técnico, que parou a gravação. Ouvi pelo fone de ouvido: “Você é que é o gaitista que toca chorinho?” Não gostei do tom, mas respondi calmamente: ” Bom, eu toco choro sim, mas não sei se sou ‘o’ gaitista.” “ E você toca mesmo ou só engana? ”Aí eu me enfezei: “Eu só engano.” Falei sério, nenhuma sombra de sorriso para dissimular. Vi que as pessoas estavam falando coisas para ele, que finalmente falou:” Você pode passar aqui na terça pra gente conversar?”E assim, desse jeito meio enviesado é que acabei gravando o meu primeiro CD dedicado ao choro, o primeiro do gênero gravado por um gaitista. Um CD muito elogiado e muito vendido, já tendo alcançado a marca de sete mil unidades, nada mal em tempos de Ipod.
Em fevereiro de 2006, outra aventura: gravar o novo trabalho do Um trio ViraLata, ao vivo, na França! Fizemos como na gravação do nosso primeiro CD, de 2003: ensaiamos como loucos, fizemos três noites de concertos, gravamos tudo e escolhemos os melhores takes. Simples assim. E em outubro, voltei para fazer o lançamento em solo francês!
No carnaval de 2009, o acontecimento mais importante de toda a minha vida: nasce meu filho, Madhu, de parto natural em casa, pesando 2,45 Kg e esbanjando saúde. Minha vida nunca mais seria a mesma...
Ainda em 2009 ganhei um lindo presente, a estatueta de ferro fundido da APCA, prêmio ao Melhor Instrumentista do Ano. E em outubro do mesmo ano, fiz uma das minhas atuações mais audaciosas: um concerto solo para gaita, na festival Les Harmonicales, em Limoges, na França! Esse concerto vai se transformar num livro-CD com 24 estudos que compus especialmente para gaita cromática, os Estudos Brasileirinhos para Gaita Cromática.
E assim vou seguindo o meu caminho, tocando com os meus amigos e mestres, como o Chico Saraiva, a Ana Fridman, o Jean-Luc Thomas, o Nélson Ayres, o Toninho Carrasqueira, o Alessandro Penezzi, o Guga, o Marcelo, a Rô. A cada encontro, um novo universo, uma nova alegria. E ao final de cada apresentação, já vou esperando pela próxima, porque a música é realmente uma coisa mágica, que me leva para outros mundos, outros tempos e me aproxima cada vez mais de mim mesmo.

versão em português

A few words...


My name is Vitor Lopes. I was born in São Paulo in the summer of 1975. When I was 12, I was given an acoustic guitar. When I was 14, a harmonica. Every day, I used to arrive home from school at 2PM, have lunch and lock myself into my room. I stayed there tuning my guitar and blowing my harmonica. Then, someone would knock on the door: “Dinner time!” Another afternoon had flown by just like that...just as if it was magic...even today I feel the same way about music, I feel it is something magic, that takes me to another world, to another time and brings me closer to myself.
Suddenly, I was playing in school festivals, opening concerts, giving classes. I started playing the harmonica with the best harmonica player in the world, Omar Izar, who is still alive and kicking! Then, I started to play the acoustic guitar, with Celso Brescia Leal. But soon I realized that my future lay in that small shiny instrument. There wasn’t another harmonica teacher to help me to improve my playing, so I went to study improvisation with a guitar player called José Roberto Araújo and with a sax player called David Richard. I then learned ear training with Ricardo Brein and harmony and arrangement with Cláudio Leal, both piano players.
One day, I had an epiphany. I was trying to get a scholarship to study abroad when a teacher invited me to see him in a concert. I went. There, in his group, was a thin man playing a tiny electric guitar. He played beautifully, with a perfect technique, improvising all the time, making musical jokes, if there is such thing, playing like a little rascal! I realized that was my path. I dropped all my dreams of studying abroad and started to follow him, Milton Mori, who until today I respectfully call “master” and with whom I have the great honor of playing.
My life changed with Miltinho. I discovered the choro and, in the choro, I discovered the path to becoming a great Brazilian musician: virtuosity, good sound, precision, swing, improvisation…I finally found my “home”! In a short time, I was playing with a small choro group, Caindo no Choro. After that, I was invited to join the Regional do Canário do Pandeiro, in the Benedito Calixto square. I remained with them for seven years. These enable me to play with some of the most important choro musicians such as Carlos Poyares, Charles da Flauta, Niquinho, Pascoal and so many others.
Shortly after that, another magical meeting: I met Guga Murray, a guitar player from Rio de Janeiro and we started a duo. Soon, the duo became a trio, with the arrival of Marcelo Costa, a percussionist from São Paulo. That is the birth of Um Trio ViraLata, the group with which I recorded two CDs and went on nine Europeans tours.
On an afternoon at the end of 2005, I was in a recording session in São Paulo, when the boss of the studio burst in. I realized that everybody tensed up at his arrival, after all, he was the boss, and he didn’t seem to be having a good day. He whispered something to the technician, who stopped the session. I heard his voice in my headphone: “Are you the guy who plays choro on the harmonica?” I didn’t like the way he talked, but I maintained my politeness: “Well, I do play the choro but I don’t know anything about being the guy”. ”And do you really play or are you just messing about? “I went mad: “I am just messing around”. I was serious. I saw the people inside the studio talking to him, but I couldn’t hear a thing. Then he finally spoke: “Can you come here next week so that we can talk about a CD?” And so it was that I finally recorded my first CD dedicated to the choro, the very first recorded by a harmonica player. A CD that was well received by both public and critics, a CD that has already sold more than four thousand copies. That ’-aint bad in these I Tunes times.
In February of 2006, another adventure: recording the new ViraLata’s CD live in France! We did it exactly the same way as the first recording, in 2003: we went crazy rehearsing, we performed three concerts, and we recorded everything and selected the best takes. That simple. And we were back again in France in October, to launch the CD!
In February of 2009, during carnival in Brazil, the most important thing in my life happened: my son, Madhu, was born at home, 2,45 kg and full of good health! My life wouldn’t be the same again...
Later in 2009, I received a wonderful gift, the award from APCA( Associação Paulista dos Críticos de Arte) given to the best Brazilian musician of the year. And in October of the same year, I performed one of my most audacious concerts: a solo concert for harmonica, in Limoges, France, in the Harmonicale Harmonica Festival. This concert will be published soon in a book-CD with 24 works I composed especially to be played by harmonica.
And here I am, following my path, playing with my friends and masters like Chico Saraiva, Ana Fridman, Jean-Luc Thomas, Nélson Ayres, Toninho Carrasqueira, Alessandro Penezzi, Guga, Marcelo, Roberta. In each encounter a new universe, a new joy. And at the end of every concert, I am already waiting for the next one, because music really is something magic, that takes me to another world, to another time and brings me closer to myself.